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EUA concluem retirada do Iraque após mais de 20 anos - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O que foi a presença americana no Iraque

Em março de 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque sob a acusação, nunca comprovada, de que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. A justificativa era parte da chamada "guerra ao terror" lançada pela Casa Branca depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Saddam caiu, e o que veio depois foram anos de insurgência e violência sectária. Cerca de 4.500 militares americanos morreram na guerra iniciada em 2003, e dezenas de milhares de iraquianos morreram desde a invasão.

No auge do conflito, em 2007, mais de 170 mil soldados americanos estavam no país. As tropas deixaram o Iraque no fim de 2011, durante o governo de Barack Obama. Menos de três anos depois, voltaram a pedido de Bagdá: o grupo Estado Islâmico havia tomado grandes áreas do território, incluindo Mossul, a segunda maior cidade do país, e chegou a controlar cerca de um terço do Iraque. Em 2014, aproximadamente 5.000 militares americanos foram enviados para liderar a coalizão internacional contra o grupo, na Operação Resolução Inerente.

O califado autoproclamado foi derrotado em 2017. Desde então, o papel americano deixou de ser de combate e passou a ser treinamento, assessoria, vigilância aérea e compartilhamento de inteligência sobre os movimentos do que restou do grupo, hoje reduzido a células adormecidas. Desde dezembro de 2021, os EUA mantinham cerca de 2.500 soldados no país.

É nesse contexto que entra a notícia desta semana.

O que aconteceu nesta quarta-feira

Os Estados Unidos concluíram em 30 de setembro de 2026 a retirada de suas últimas tropas do Iraque, depois que os soldados deixaram as bases que ainda ocupavam em Erbil, no Curdistão iraquiano. A saída foi acordada em 2024, entre Bagdá e o governo de Joe Biden, e executada pela administração de Donald Trump.

"Este marco reflete o sucesso de uma campanha de 12 anos que derrotou o Estado Islâmico como uma ameaça militar organizada no Iraque e em toda a região", afirmou o porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, em comunicado. Segundo ele, a mudança marca a transição de uma missão de coalizão em tempos de guerra para um esforço de segurança liderado pelo Iraque, apoiado por uma relação bilateral mais convencional. A responsabilidade pelos "desafios de segurança restantes", incluindo o Estado Islâmico e as milícias alinhadas ao Irã, recai agora sobre o governo iraquiano.

Trump anunciou a retirada em publicação na rede Truth Social, chamando-a de "um grande dia para a América" e de fim de "uma incursão muito cara ao inferno". "Viemos para combater um califado. Não existe mais um califado. Estamos voltando para casa", escreveu.

O Comando Central americano informou que a missão contra o Estado Islâmico continua na Síria, agora a partir de um quartel na Jordânia. "Enquanto damos um passo atrás e transferimos a responsabilidade principal e total da segurança do Iraque ao governo iraquiano e ao bravo povo do Iraque, as forças dos Estados Unidos e da Coalizão posicionadas na região permanecerão prontas para responder a qualquer ameaça do EI que surja", afirmou o comandante Brad Cooper.

Duas comemorações, duas narrativas

O governo iraquiano declarou quatro dias de feriado nacional, batizados de "Dias da Soberania". "Primeiro de outubro será um novo dia na trajetória do Estado iraquiano, com o país livre de qualquer presença militar estrangeira e a conclusão da soberania nacional sobre seu território", afirmou o primeiro-ministro Ali al-Zaidi em comunicado. Ele presidiu a cerimônia de transferência e descreveu o momento como o começo de uma "nova fase, definida pela soberania do Iraque, pela força de suas instituições, pela preparação de suas forças, pela unidade na tomada de decisões e por alianças equilibradas com seus amigos". O fim da missão da coalizão, acrescentou, não encerra o combate ao terrorismo.

As milícias apoiadas pelo Irã celebraram o mesmo fato com outra leitura. A As'hab Al-Kahf parabenizou os iraquianos "pela humilhante retirada do ocupante americano sob os ataques dos drones e mísseis da Resistência". Abu Mujahid al-Assaf, responsável de segurança da Kata'ib Hezbollah, saudou a "expulsão das forças de ocupação" como "o início da plena soberania" e advertiu o governo a não agir sob orientação de Washington, afirmando que "qualquer governo que não trabalhe em benefício do povo será derrubado por todos os meios".

Nem todos em Bagdá compartilham a euforia. "A lição das últimas duas décadas é que os vácuos de segurança podem ser extremamente perigosos", disse à Reuters Jassim al-Bahadli, analista iraquiano que assessora as forças de segurança.

O desarme que não aconteceu

Bagdá havia vinculado o fim da missão americana ao desarmamento das milícias que operam sob o guarda-chuva das Forças de Mobilização Popular, a rede majoritariamente xiita que o Estado tenta colocar sob seu controle. O prazo original era o mesmo 30 de setembro. Na semana passada, al-Zaidi anunciou a nova data: 30 de junho de 2027. O plano prevê 90 dias em que os grupos armados cessariam ataques em troca de garantias de que as forças americanas não os atacariam, seguidos de entrega gradual de armas.

Os grupos mais radicais não aderiram. "Kata'ib Hezbollah, Harakat al-Nujaba e Kata'ib Sayyid al-Shuhada até agora não deram qualquer sinal de que estejam dispostos a entregar suas armas ao Estado e se integrar às Forças Armadas do Iraque", afirmou Alina L. Romanowski, pesquisadora do Atlantic Council. Um comandante da Harakat al-Nujaba, que falou à CNN sob anonimato, disse que a exigência de desarme "é apoiada pelos Estados Unidos, pelo sionismo, pelo Ocidente e pelos países do Golfo, e tem como objetivo enfraquecer o Iraque".

Analistas divergem sobre a viabilidade do novo prazo. Para Lahib Higel, do International Crisis Group, "desarmar rapidamente esses grupos é uma tarefa praticamente impossível" enquanto o regime seguir no poder em Teerã. Renad Mansour, da Chatham House, prevê que "mesmo no próximo ano, muitos grupos armados continuarão atuando à margem do governo central". Já o ex-embaixador americano Douglas Silliman vê um ganho possível: sem tropas estrangeiras como alvo comum, as milícias perdem uma bandeira política, e o governo ganha espaço para pressionar.

O fantasma de 2011

A comparação com a retirada anterior atravessa o debate. Yerevan Saeed, do Atlantic Council, lembra que, depois da saída de 2011, o governo dominado por xiitas perseguiu e marginalizou lideranças sunitas, alimentando ressentimentos que contribuíram para a ascensão do Estado Islâmico. Com comunidades sunitas novamente apreensivas, ele considera o risco de radicalização significativo. Silliman é mais otimista: avalia que as forças de segurança iraquianas estão hoje bem mais preparadas do que há uma década.

O temor concreto entre autoridades iraquianas e curdas é o desaparecimento do apoio americano em inteligência, logística e operações com drones. O general reformado Mohammed al-Jabouri, que comandou uma brigada na guerra contra o EI, disse à Reuters que "a questão mais importante agora é se as instituições de segurança do Iraque prepararam um plano B viável para a fase pós-coalizão". Um dos piores cenários, segundo ele, seria o grupo obter drones armados enquanto o país ainda carece de defesa aérea suficiente.

A retirada inclui a remoção dos sistemas de defesa aérea americanos em Erbil. O Ministério dos Peshmerga do governo regional curdo registrou que a área foi alvo de mais de mil ataques com drones e mísseis balísticos durante o conflito entre EUA e Irã, e classificou a saída sem substituição desses sistemas como "motivo de preocupação".

O que os EUA não deixam de ter

A influência americana não termina com as tropas. O Iraque depende das receitas de petróleo em dólares e do acesso ao sistema financeiro americano, compra armamento dos EUA e recorre a Washington para apoio diplomático com vizinhos. "A maior embaixada dos EUA no mundo fica em Bagdá. O mesmo acontece com o maior consulado americano, em Erbil", observa Saeed. O Pentágono afirmou que seguirá fornecendo treinamento e apoio de inteligência aos parceiros iraquianos. Mansour avalia que a relação passará a se concentrar em "outras áreas, incluindo vínculos econômicos, em vez de uma relação centrada na segurança".

O pano de fundo: a guerra EUA-Irã

Tudo isso acontece no oitavo mês de uma guerra aberta. Em fevereiro, Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva contra o Irã, que custou a vida do líder supremo Ali Khamenei. Desde então, os ataques de grupos armados iraquianos contra alvos ligados aos EUA em Erbil aumentaram, assim como os ataques iranianos à infraestrutura de grupos curdos de oposição no Iraque.

No mesmo 30 de setembro, o Irã informou ter recebido uma resposta formal americana à proposta de Teerã para interromper os combates, transmitida por mediadores do Catar. O conteúdo não foi divulgado. A proposta iraniana prevê um roteiro de sete dias para reabrir o Estreito de Ormuz, condicionado ao fim do bloqueio naval, à suspensão de sanções sobre o petróleo e a um cessar-fogo. Trump afirmou que rejeitou a proposta mais recente e sinalizou que grandes bombardeios podem ser retomados depois das eleições legislativas de novembro.

Para o analista Safwan Al-Amin, a retirada não é necessariamente permanente: "As tropas americanas já haviam deixado o Iraque uma vez, em 2011, mas acabaram retornando alguns anos depois. É o fim de um capítulo da história, não o capítulo final."

O que fazer com essa informação

Três coisas podem ser acompanhadas nos próximos meses, e elas dizem mais do que qualquer declaração de cerimônia.

A primeira é o desarme. O prazo de 30 de junho de 2027 começa com um período de 90 dias de cessação de ataques. Se esse período passar com ataques continuando, o calendário inteiro perde credibilidade antes de chegar à fase de entrega de armas. Vale observar especificamente o comportamento de Kata'ib Hezbollah, Harakat al-Nujaba e Kata'ib Sayyid al-Shuhada, os três grupos que ainda não sinalizaram adesão.

A segunda é a atividade do Estado Islâmico nas regiões onde o apoio de inteligência e a vigilância aérea americana deixam de operar no dia a dia. O grupo está reduzido a células adormecidas, e a pergunta levantada por militares iraquianos é se existe um plano substituto para o que a coalizão fazia.

A terceira é a guerra entre EUA e Irã e as negociações mediadas pelo Catar. O Iraque é vizinho do Irã, tem maioria xiita e abriga grupos armados ligados a Teerã; se os combates se intensificarem, o território volta a ser palco, agora sem tropas americanas no país para servir de alvo ou de dissuasão. Para quem acompanha preços, o Estreito de Ormuz está no centro da negociação, e o Brent já foi negociado acima de 100 dólares em setembro em meio às incertezas de abastecimento.

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